Segunda-feira, Janeiro 23, 2006

Moonlight Sonata

Vem um vazio flúido, opaco. Ocupa cada centímetro, cada fresta do quarto. Aquela presença nunca mais se materializará, perdida prá sempre nos desvarios da condição humana. Se uma vida não fora o bastante para conhecê-la e apreciá-la, todas elas não bastariam para compreender a dimensão de sua falta.

Os colares dependurados na cabeceira da cama, o travesseiro amassado, os tapetes fora do lugar. O espaço quadruplicado pela ausência, desperdiçando aquele perfume que nunca mais se espalharia zombeteiro e adocicado. O dar-se conta da ausência, senhores, é o que nos faz humanos. É preciso vagar entre o passado e o futuro para sofrer a falta daqueles que amamos. E quando a falta é súbita como a morte, quanto é perdido entre uma lágrima e outra. Passado, futuro e lágrima, ocaso e pesar.

Tudo em vão.

Agradecimentos: ao senhor Beethoven, por dar à dor um nome.

Terça-feira, Dezembro 06, 2005

Suores Noturnos (descritos à luz do dia)


Um segundo e outro. Alguns minutos, horas. E num rompante atemporal a penumbra se faz aurora. O tilintar surdo dos raios luminosos - invasores degenerados - arrombam a venesiana e gritam para que não tenhas chance: "É dia!". E olhas com que desdém a manhã que veio novamente sem ser convidada. Se ao menos tivesses pedido por isso. É uma maldição que deves carregar.
O farfalhar dos lençóis só faz amplificar enquanto a noite se esgota. Cada som adquire individualidade lá pelas 3 da madrugada. O vaso gorgogeia a água imunda, a torneira esgota cronometradamente a parte ainda pura. O cão do vizinho tornou-se Cérbero. Que leve a todos para o Inferno!
Carregar este fardo é também sofrer martírios diurnos. O mundo fica bem à moda dos quadros impressionistas. As vozes cada vez mais distantes. De fato, parece que se está sendo sugado para um mundo sem luz nem som, alguma espécie de purgatório para as almas que nunca descansam. E o pior, os sonhos que não são sonhados acabam por se misturar à realidade. Bétulas vermelhas chamuscadas pelo sopro voraz de automóveis desgovernados. O devaneio é a chave para sempre perdida da sanidade plena, coisa que nunca existiu.
O tempo mal aproveitado que não volta mais, os pavores que permanecem às expensas de outras vontades. Os insones deveriam ser assassinados. Qualquer dia podem se voltar contra a injustiça de velar pelos que dormem.

Segunda-feira, Dezembro 05, 2005

Evocação

Ó portentosas entidades deste e de outros mundos, envoco em nome de todos os nomes vosso sincero auxílio nesta árdua tarefa de me descascar em público como a uma cebola. Passo agora a palavra para os fantasmas que habitam este quarto:

Kurt: Talvez seja mais prático comer alguns biscoitos, ou mesmo espalhar os miolos pelo chão.

Darwin: Não creio que tal atitude seja lá muito adaptativa. Pegue um barco e vá ver o mundo. Talvez encontre a ti mesmo na volta.

Marx: Calem a boca os dois! Acho que temos aqui um problema mais ontológico. Que tal livrar-se desse manto burguês e notar um pouco a realidade? Este egoísmo está lhe matando. Humanismo, meu garoto. Sem isto a tua filosofia não passa de miséria.

Iggy Pop: Foda-se tudo isso. Agora eu quero ser o seu cachorro!

Richar Dawkins: Um pouco de egoísmo não faz mal a ninguém!

Borges: Te perdeste entre teus livros. A biblioteca de Alexandria é um manicômio labiríntico sem saída. Procure pelo Aleph e tire suas próprias conclusões

Foucault: Controle, é a tua angústia. Busca as formas perdidas do "cuidado de si".

Thom York: Sit Down, Stande Up. Tudo está no seu lugar certo. Há duas cores na minha cabeça. OK... por um segundo eu perdi a mim mesmo.

ORA, CALEM-SE!

Domingo, Dezembro 04, 2005

Blake

Há mais poesia nas telas de William Blake do que em suas poesias

Lodo

Do pó à lama, da lama ao lodo.